Capítulo 1

A loja que abre quando chove

Cartas para Depois da Chuva · por Clarice Ventura

A Guarda-Chuvaria Imperial tinha esse nome pomposo e meio metro de fachada, espremida entre uma lotérica e um ferro-velho de eletrônicos. O letreiro prometia CONSERTOS — VARETAS — CABOS — REFORMAS, e embaixo, em letra menor, a frase que o avô de Teo mandou pintar em 1979: "Aberto enquanto durar a chuva."

Teo herdou a loja, a frase e o costume de levá-la a sério. Sol firme, porta fechada. Primeira garoa, ele girava a chave e acendia a luz amarela do balcão, e era como se a cidade inteira lembrasse de repente que tinha um guarda-chuva capenga em casa.

Foi numa terça de temporal que ele achou o primeiro bilhete. Estava costurado no forro de um guarda-chuva xadrez, dobrado em quatro, escrito a lápis: "Se você achou isto, é porque abriu meu guarda-chuva pelo avesso. Eu também vivo assim. Me desculpa pelo que eu disse na rodoviária. — L."

A dona do xadrez nunca voltou para buscar.

Teo pregou o bilhete na parede dos achados, entre varetas aposentadas. Mas a frase ficou fazendo barulho dentro dele, do jeito que chuva faz em telhado de zinco. Quinze dias depois, escreveu a resposta. Não sabia para quem. Escreveu assim mesmo — ofício de quem conserta o que os outros desistem de abrir.