Capítulo 2

Bilhetes no forro

Cartas para Depois da Chuva · por Clarice Ventura

Depois do primeiro, Teo passou a procurar. Virou hábito de bancada: antes de trocar vareta, apalpar o forro. E os guarda-chuvas, descobriu, eram um correio clandestino da cidade inteira.

Num preto de cabo torto: uma lista de compras com um item riscado — "coragem". Num infantil de dinossauros: "papai disse que chuva é o céu regando a gente". Num automático de marca cara, papel de gramatura boa e caligrafia de arquiteta: "Eu disse sim no cartório e não no coração. Se chover no dia 12, eu volto para buscar este guarda-chuva e desfaço tudo."

Choveu no dia 12. Teo deixou a loja aberta até meia-noite. Ninguém veio.

A resposta dele — porque a essa altura ele respondia todos — ficou costurada no forro do automático: "Moça, guarda-chuva automático abre com um botão, mas fecha na mão, com força. Talvez a senhora tenha feito na ordem errada. A loja abre quando chove."

Ele já não sabia se consertava guarda-chuvas ou se os usava de envelope. As duas coisas, talvez. O avô dizia que todo objeto esquecido é uma conversa interrompida no meio; o ofício era menos costurar pano e mais costurar o resto.

Na quarta-feira seguinte, entrou na loja uma mulher ensopada, sem guarda-chuva nenhum, segurando um papel dobrado em quatro. "Você é o cara que responde?", perguntou. E antes que Teo negasse, pôs o papel no balcão: era a letra dele. "Isso estava no guarda-chuva da minha irmã. Eu preciso que você me explique o que significa 'a loja abre quando chove'."

Lá fora, pontualíssimo, o céu fechou.