O inventário da avó Iolanda coube em duas caixas de papelão e uma decepção. Nenhuma joia, nenhum segredo de família — só louça lascada, novelas de banca e um caderno de capa dura, grosso como um tijolo, cheirando a poeira e cravo.
Marina quase doou o caderno junto com o resto. Foi o carimbo na primeira página que a fez parar: PROPRIEDADE DA CARTÓGRAFA TITULAR. NÃO DOAR. NÃO VENDER. NÃO PERDER. A letra era da avó, mas o tom era de repartição pública.
Dentro, mapas. Dezenas, desenhados à mão com uma precisão que a avó — que se perdia no caminho da padaria — jamais deveria ter. Eram mapas do bairro, Marina reconhecia as praças, o mercado, o viaduto. Mas havia ruas a mais. Uma travessa entre a farmácia e o açougue, onde ela tinha certeza de que existia só uma parede. Um beco chamado Rua do Descanso, desenhado com tinta dourada.
Na última página, um bilhete: "Se está lendo isto, o cargo agora é seu. Comece pela Rua do Descanso. Leve guarda-chuva."
Lá fora, o céu estava limpo. Marina levou o guarda-chuva.