A parede entre a farmácia e o açougue continuava sendo uma parede. Marina sentiu-se idiota, parada na calçada com um guarda-chuva fechado e um caderno de mapas malucos debaixo do braço.
Foi quando a primeira gota caiu.
Não veio do céu — veio da parede. O reboco escureceu como se chovesse de dentro para fora, e a água escorreu desenhando linhas verticais, depois uma fresta, depois um vão. Em trinta segundos, onde havia tijolo havia uma entrada de rua, estreita e de paralelepípedos, descendo suave até uma fileira de casas baixas com luz acesa.
A placa dizia: RUA DO DESCANSO. A tinta era dourada.
Marina abriu o guarda-chuva — dentro da rua chovia fininho, uma chuva particular, de uso interno — e desceu. Na primeira casa, uma senhora regava begônias que não precisavam de rega. "Você demorou", disse a senhora, sem susto nenhum. "Iolanda avisou que a neta era teimosa. Entra. O café está quente e nós temos um problema."
O problema estava na mesa da cozinha: um mapa da própria Rua do Descanso, e nele, três casas do fim da rua tinham sido apagadas. Não rasuradas — apagadas, o papel liso como se nunca tivessem sido desenhadas.
"A casa da Dona Zilá sumiu na terça", disse a senhora, servindo o café. "Com a Dona Zilá dentro."