Existiam regras, claro. Sempre existem, e ninguém as explica na ordem certa.
A senhora das begônias chamava-se Ondina e era, nas palavras dela, "zeladora provisória há quarenta e um anos". Entre uma xícara e outra, despejou sobre Marina o regulamento inteiro do ofício:
Um: ruas perdidas existem porque alguém precisou delas com força suficiente. A Rua do Descanso nasceu em 1943, quando uma cidade inteira de gente cansada precisou de um lugar onde o tempo andasse mais devagar.
Dois: toda rua perdida precisa constar em pelo menos um mapa. O caderno de Marina era o registro oficial — o único, desde que a prefeitura queimou o arquivo antigo por engano.
Três: rua que sai de todos os mapas deixa de existir. Devagar, primeiro nos detalhes — a caixa de correio, o degrau da entrada —, depois de vez.
"Sua avó redesenhava as ruas toda semana", disse Ondina. "Mão firme até o fim. Aí a mão começou a falhar, e ela adiou, e adiou—" Ondina não terminou a frase. Empurrou o mapa apagado na direção de Marina. "Você desenha?"
Marina desenhava. Mal, mas desenhava. Abriu o caderno na página da Rua do Descanso e copiou a casa de Dona Zilá do jeito que Ondina descrevia: portão verde, duas janelas, telhado de duas águas.
Do fim da rua, veio um barulho de madeira se ajeitando, como uma casa pigarreando. Ondina sorriu pela primeira vez. "Mão de cartógrafa. Agora vamos ao problema de verdade: isso não foi esquecimento. Alguém apagou. E borracha não trabalha sozinha."