O som discreto do meu despertador inteligente ecoou pelo quarto, suave, mas firme o suficiente para me arrancar do sono. Abri os olhos lentamente, deixando a claridade filtrada pelas cortinas automáticas preencher o ambiente. Minha cobertura no último andar era o reflexo exato de quem eu sou: impecável, minimalista e imponente. Nada estava fora do lugar, porque eu nunca permitia desordem.
O teto alto e as janelas de vidro do chão ao teto me davam a vista completa da cidade ainda adormecida. Os prédios ao redor pareciam insignificantes diante da imponência da minha casa suspensa. O mármore branco polido refletia a luz da manhã, e o contraste com os móveis em preto e dourado transmitia poder. Exatamente como eu queria que fosse.
Levantei da cama de lençóis de seda e caminhei até a cozinha americana, onde a cafeteira programada já soltava o aroma intenso de café fresco. Não precisava de ninguém me servindo. Eu sabia cuidar de mim mesma — e fazia isso melhor do que qualquer um.
Enquanto tomava o primeiro gole, encostada na bancada de quartzo negro, deixei que a cafeína percorresse minhas veias como combustível. Olhei para a cidade abaixo e pensei, como sempre: tudo isso poderia ser um caos, mas aqui em cima, eu controlo tudo.
Minha rotina era quase um ritual: vinte minutos de exercícios no meu estúdio particular, banho gelado para despertar cada célula, skincare impecável e a escolha da roupa que traduzia minha postura de líder. Sempre alfaiataria impecável, salto alto e perfumes que impunham presença antes mesmo de eu abrir a boca.
Namoro? Homem? Para quê? Nunca precisei. Sempre achei que eles mais atrasam do que acrescentam. Minha vida é meu império, e não havia espaço para distrações.
Enquanto ajeitava o cabelo diante do enorme espelho do closet, sorri de canto. Eu sabia o que era: determinada, arrogante para alguns — mas, para mim, apenas alguém que sabe o que quer.
Hoje, como todos os outros dias, o mundo iria me ouvir.
Nunca fui de me apegar à família. Desde muito nova, aprendi que a única pessoa em quem eu poderia confiar era em mim mesma. Cresci distante, sempre observando de fora o que parecia ser "laços indestrutíveis" para os outros. Para mim, tudo não passava de uma ilusão barata. Enquanto muitos sonhavam com finais felizes e jantares de domingo, eu entendia que o mundo era cruel — e que eu precisaria ser mais cruel ainda para conquistá-lo.
E eu conquistei.
Cada madrugada que virei estudando, cada oportunidade que arranquei das mãos de quem duvidava de mim, cada não que me jogaram na cara... tudo se transformou no império que construí com minhas próprias mãos. Hoje, minha marca de cosméticos e perfumaria é um nome que ecoa em vários países. Crescemos mais do que qualquer um ousou prever, e agora eu sou sinônimo de poder. A mulher que dita tendências, que lança fragrâncias capazes de se tornarem armas de sedução, que transforma o simples ato de passar batom em um manifesto.
Dizem que por trás de um grande homem sempre existe uma grande mulher. Engraçado... eu nunca precisei de nenhum deles para estar aqui. Para mim, homem é atraso de vida. Não nego que sei brincar com eles. Sempre tive aquele que eu quisesse aos meus pés, rendidos pelo mistério dos meus olhos azuis ou pelo toque sutil da minha presença. Mas nunca precisei de ninguém para me erguer. Eu mesma sempre fui o alicerce, a fundação e o topo do meu próprio império.
Minha imagem sempre foi calculada. Os cabelos ruivos, longos e ondulados até a metade das costas, são a marca que muitos associam ao fogo que carrego por dentro. Minha pele clara, meus olhos intensos e frios, transmitem exatamente o que quero: proximidade e distância ao mesmo tempo. Um convite perigoso e uma barreira intransponível.
Enquanto terminava de me maquiar diante do espelho, passando meu batom vermelho exclusivo — criado por mim e vendido para o mundo —, me peguei pensando: tudo o que tenho hoje é resultado da minha disciplina, da minha solidão e da minha fome de poder.
E o mais curioso? Ainda sinto que isso é só o começo.
Continuando minha manhã rotineira: café preto sem açúcar, uma olhada rápida nos relatórios que recebo antes mesmo do sol nascer e o silêncio da minha cobertura, que já se tornou mais familiar do que qualquer abraço de família poderia ser. Depois, entro na minha rotina final de preparação — não apenas estética, mas estratégica. Cada detalhe em mim precisa comunicar o que sou: poder.
Quando minha limusine para em frente à sede da empresa, a cena é quase ritualística. Os vidros fumês descem devagar, e sei que todos na entrada já endireitaram a postura. É engraçado como minha simples presença muda a atmosfera ao redor.
Saio do carro com meus saltos impecáveis batendo contra o mármore da calçada. O som ecoa como um lembrete: eu cheguei. Os olhares se voltam, alguns tentam disfarçar, outros nem conseguem. Homens de terno, mulheres de todas as áreas, estagiários apavorados — todos se dividem entre o medo de falhar e o fascínio por estar diante de mim.
Eu percebo. Sempre percebo.
Dentro do elevador panorâmico, observo a cidade abaixo de mim e penso em como cada arranha-céu poderia muito bem carregar o meu nome. É questão de tempo, penso, ajeitando os cabelos ruivos atrás do ombro.
Quando as portas se abrem no último andar, o som dos saltos volta a preencher o ambiente. Os corredores se silenciam. Conversas são interrompidas. Não porque eu exija — nunca precisei pedir nada. Mas porque minha presença é um lembrete constante de que cada detalhe aqui existe porque eu quis.
Entro na sala de reuniões, e vejo os diretores já me esperando. Alguns tentam sorrir, outros mantêm a seriedade como se fosse uma armadura. Eu me sento na cabeceira da mesa, cruzo as pernas e deixo o batom vermelho marcar o primeiro gole do meu novo café recém-servido.
— Vamos começar. — minha voz ecoa firme, sem espaço para hesitação.
É nesse momento que todos lembram que Lianna não é apenas uma CEO. Sou uma força da natureza. Uma mulher que não precisa levantar o tom para fazer o mundo inteiro se curvar.
E enquanto eles falam, tentando impressionar com números, projeções e estratégias, eu apenas observo. O simples peso do meu olhar é suficiente para que pensem duas vezes antes de errar.
Porque aqui, neste império que construí sozinha, não há espaço para fraqueza.
Ao fim da reunião fui a minha sala, estava revisando pela terceira vez a apresentação da nova linha de perfumes quando ouvi duas batidinhas leves na porta. Não precisei levantar os olhos para saber quem era.
— Pode entrar, Raquel. — disse, ainda sem desgrudar a atenção da tela do notebook.
Ela entrou com aquele sorriso de sempre, equilibrando uma pilha de papéis de um lado e um copo de café do outro. Era incrível como ela conseguia fazer tudo parecer simples, mesmo quando eu sabia que a manhã tinha sido um caos de reuniões, ligações e prazos apertados.
— Trouxe reforço — ela ergueu o copo em minha direção. — Café extra forte, do jeitinho que você gosta.
Peguei sem pensar duas vezes.
— Você é a única pessoa nesse prédio que ainda se preocupa em manter minha sanidade mental.
Ela riu.
— Não é fácil ser a melhor amiga da mulher mais temida do mundo corporativo.
Rolei os olhos, mas deixei escapar um meio sorriso.
Raquel era a única capaz de atravessar a minha fachada sem esforço. Ela me conhecia de verdade. Sabia o quanto eu havia sangrado para chegar até ali, o quanto tinha aberto mão de muita coisa e até de uma vida pessoal para construir esse império.
Enquanto eu voltava minha atenção a papelada, ela se apoiou na mesa, com aquele olhar maroto que eu já sabia onde ia dar.
— Sexta-feira. — ela começou, cruzando os braços. — Adivinha o que isso significa?
— Que amanhã é sábado e eu finalmente vou poder trabalhar sem ser interrompida a cada cinco minutos? — respondi, tentando manter o tom sério.
Raquel bufou.
— Errado. Significa que hoje à noite nós vamos sair. E antes que você invente uma desculpa, já comprei ingressos para um barzinho novo que abriu no centro.
Suspirei, encostando a cabeça no encosto da cadeira.
— Raquel... você sabe que esse tipo de coisa não é pra mim. Música alta, gente bêbada, conversas superficiais...
Ela se inclinou mais perto, os olhos brilhando de provocação.
— Você trabalha vinte horas por dia, fala com acionistas e investidores milionários como se estivesse pedindo café, mas tem medo de se divertir um pouco?
Eu tentei responder, mas nada saiu. E, no fundo, eu sabia que ela estava certa.
— Uma noite, Lianna. Só uma. — ela insistiu, quase suplicando.
Fiz uma pausa longa, tomando um gole do café para ganhar tempo.
Por um instante, a imagem de mim mesma sozinha no sofá da cobertura, assistindo a mais uma série sem graça, me pareceu... insuportável.
— Está bem. — murmurei por fim. — Uma noite. Mas só porque você insiste.
Raquel vibrou como se tivesse acabado de ganhar na loteria.
— Você não vai se arrepender! — disse, já saindo com passos apressados.
Eu ri baixinho, balançando a cabeça. No fundo, sabia que me arrepender era exatamente o que eu ia fazer.