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Capítulo 1

Capítulo 1

Um chamado no tempo · por Josy Alcantara

O som dis­cre­to do meu des­per­ta­dor in­te­li­gen­te eco­ou pelo quar­to, su­a­ve, mas fir­me o su­fi­ci­en­te para me ar­ran­car do sono. Abri os olhos len­ta­men­te, dei­xan­do a cla­ri­da­de fil­tra­da pe­las cor­ti­nas au­to­má­ti­cas pre­en­cher o am­bi­en­te. Mi­nha co­ber­tu­ra no úl­ti­mo an­dar era o re­fle­xo exa­to de quem eu sou: im­pe­cá­vel, mi­ni­ma­lis­ta e im­po­nen­te. Nada es­ta­va fora do lu­gar, por­que eu nun­ca per­mi­tia de­sor­dem.

O teto alto e as ja­ne­las de vi­dro do chão ao teto me da­vam a vis­ta com­ple­ta da ci­da­de ain­da ador­me­ci­da. Os pré­di­os ao re­dor pa­re­ci­am in­sig­ni­fi­can­tes di­an­te da im­po­nên­cia da mi­nha casa sus­pen­sa. O már­mo­re bran­co po­li­do re­fle­tia a luz da ma­nhã, e o con­tras­te com os mó­veis em pre­to e dou­ra­do trans­mi­tia po­der. Exa­ta­men­te como eu que­ria que fos­se.

Le­van­tei da cama de len­çóis de seda e ca­mi­nhei até a co­zi­nha ame­ri­ca­na, onde a ca­fe­tei­ra pro­gra­ma­da já sol­ta­va o aro­ma in­ten­so de café fres­co. Não pre­ci­sa­va de nin­guém me ser­vin­do. Eu sa­bia cui­dar de mim mes­ma — e fa­zia isso me­lhor do que qual­quer um.

En­quan­to to­ma­va o pri­mei­ro gole, en­cos­ta­da na ban­ca­da de quart­zo ne­gro, dei­xei que a ca­fe­í­na per­cor­res­se mi­nhas vei­as como com­bus­tí­vel. Olhei para a ci­da­de abai­xo e pen­sei, como sem­pre: tudo isso po­de­ria ser um caos, mas aqui em cima, eu con­tro­lo tudo.

Mi­nha ro­ti­na era qua­se um ri­tu­al: vin­te mi­nu­tos de exer­cí­ci­os no meu es­tú­dio par­ti­cu­lar, ba­nho ge­la­do para des­per­tar cada cé­lu­la, skin­ca­re im­pe­cá­vel e a es­co­lha da rou­pa que tra­du­zia mi­nha pos­tu­ra de lí­der. Sem­pre al­fai­a­ta­ria im­pe­cá­vel, sal­to alto e per­fu­mes que im­pu­nham pre­sen­ça an­tes mes­mo de eu abrir a boca.

Na­mo­ro? Ho­mem? Para quê? Nun­ca pre­ci­sei. Sem­pre achei que eles mais atra­sam do que acres­cen­tam. Mi­nha vida é meu im­pé­rio, e não ha­via es­pa­ço para dis­tra­ções.

En­quan­to ajei­ta­va o ca­be­lo di­an­te do enor­me es­pe­lho do clo­set, sor­ri de can­to. Eu sa­bia o que era: de­ter­mi­na­da, ar­ro­gan­te para al­guns — mas, para mim, ape­nas al­guém que sabe o que quer.

Hoje, como to­dos os ou­tros dias, o mun­do iria me ou­vir.

Nun­ca fui de me ape­gar à fa­mí­lia. Des­de mui­to nova, apren­di que a úni­ca pes­soa em quem eu po­de­ria con­fi­ar era em mim mes­ma. Cres­ci dis­tan­te, sem­pre ob­ser­van­do de fora o que pa­re­cia ser "la­ços in­des­tru­tí­veis" para os ou­tros. Para mim, tudo não pas­sa­va de uma ilu­são ba­ra­ta. En­quan­to mui­tos so­nha­vam com fi­nais fe­li­zes e jan­ta­res de do­min­go, eu en­ten­dia que o mun­do era cru­el — e que eu pre­ci­sa­ria ser mais cru­el ain­da para con­quis­tá-lo.

E eu con­quis­tei.

Cada ma­dru­ga­da que vi­rei es­tu­dan­do, cada opor­tu­ni­da­de que ar­ran­quei das mãos de quem du­vi­da­va de mim, cada não que me jo­ga­ram na cara... tudo se trans­for­mou no im­pé­rio que cons­truí com mi­nhas pró­pri­as mãos. Hoje, mi­nha mar­ca de cos­mé­ti­cos e per­fu­ma­ria é um nome que ecoa em vá­ri­os pa­í­ses. Cres­ce­mos mais do que qual­quer um ou­sou pre­ver, e ago­ra eu sou si­nô­ni­mo de po­der. A mu­lher que dita ten­dên­ci­as, que lan­ça fra­grân­ci­as ca­pa­zes de se tor­na­rem ar­mas de se­du­ção, que trans­for­ma o sim­ples ato de pas­sar ba­tom em um ma­ni­fes­to.

Di­zem que por trás de um gran­de ho­mem sem­pre exis­te uma gran­de mu­lher. En­gra­ça­do... eu nun­ca pre­ci­sei de ne­nhum de­les para es­tar aqui. Para mim, ho­mem é atra­so de vida. Não nego que sei brin­car com eles. Sem­pre tive aque­le que eu qui­ses­se aos meus pés, ren­di­dos pelo mis­té­rio dos meus olhos azuis ou pelo to­que su­til da mi­nha pre­sen­ça. Mas nun­ca pre­ci­sei de nin­guém para me er­guer. Eu mes­ma sem­pre fui o ali­cer­ce, a fun­da­ção e o topo do meu pró­prio im­pé­rio.

Mi­nha ima­gem sem­pre foi cal­cu­la­da. Os ca­be­los rui­vos, lon­gos e on­du­la­dos até a me­ta­de das cos­tas, são a mar­ca que mui­tos as­so­ci­am ao fogo que car­re­go por den­tro. Mi­nha pele cla­ra, meus olhos in­ten­sos e fri­os, trans­mi­tem exa­ta­men­te o que que­ro: pro­xi­mi­da­de e dis­tân­cia ao mes­mo tem­po. Um con­vi­te pe­ri­go­so e uma bar­rei­ra in­trans­po­ní­vel.

En­quan­to ter­mi­na­va de me ma­qui­ar di­an­te do es­pe­lho, pas­san­do meu ba­tom ver­me­lho ex­clu­si­vo — cri­a­do por mim e ven­di­do para o mun­do —, me pe­guei pen­san­do: tudo o que te­nho hoje é re­sul­ta­do da mi­nha dis­ci­pli­na, da mi­nha so­li­dão e da mi­nha fome de po­der.

E o mais cu­ri­o­so? Ain­da sin­to que isso é só o co­me­ço.

Con­ti­nu­an­do mi­nha ma­nhã ro­ti­nei­ra: café pre­to sem açú­car, uma olha­da rá­pi­da nos re­la­tó­ri­os que re­ce­bo an­tes mes­mo do sol nas­cer e o si­lên­cio da mi­nha co­ber­tu­ra, que já se tor­nou mais fa­mi­li­ar do que qual­quer abra­ço de fa­mí­lia po­de­ria ser. De­pois, en­tro na mi­nha ro­ti­na fi­nal de pre­pa­ra­ção — não ape­nas es­té­ti­ca, mas es­tra­té­gi­ca. Cada de­ta­lhe em mim pre­ci­sa co­mu­ni­car o que sou: po­der.

Quan­do mi­nha li­mu­si­ne para em fren­te à sede da em­pre­sa, a cena é qua­se ri­tu­a­lís­ti­ca. Os vi­dros fu­mês des­cem de­va­gar, e sei que to­dos na en­tra­da já en­di­rei­ta­ram a pos­tu­ra. É en­gra­ça­do como mi­nha sim­ples pre­sen­ça muda a at­mos­fe­ra ao re­dor.

Saio do car­ro com meus sal­tos im­pe­cá­veis ba­ten­do con­tra o már­mo­re da cal­ça­da. O som ecoa como um lem­bre­te: eu che­guei. Os olha­res se vol­tam, al­guns ten­tam dis­far­çar, ou­tros nem con­se­guem. Ho­mens de ter­no, mu­lhe­res de to­das as áre­as, es­ta­gi­á­ri­os apa­vo­ra­dos — to­dos se di­vi­dem en­tre o medo de fa­lhar e o fas­cí­nio por es­tar di­an­te de mim.

Eu per­ce­bo. Sem­pre per­ce­bo.

Den­tro do ele­va­dor pa­no­râ­mi­co, ob­ser­vo a ci­da­de abai­xo de mim e pen­so em como cada ar­ra­nha-céu po­de­ria mui­to bem car­re­gar o meu nome. É ques­tão de tem­po, pen­so, ajei­tan­do os ca­be­los rui­vos atrás do om­bro.

Quan­do as por­tas se abrem no úl­ti­mo an­dar, o som dos sal­tos vol­ta a pre­en­cher o am­bi­en­te. Os cor­re­do­res se si­len­ci­am. Con­ver­sas são in­ter­rom­pi­das. Não por­que eu exi­ja — nun­ca pre­ci­sei pe­dir nada. Mas por­que mi­nha pre­sen­ça é um lem­bre­te cons­tan­te de que cada de­ta­lhe aqui exis­te por­que eu quis.

En­tro na sala de reu­niões, e vejo os di­re­to­res já me es­pe­ran­do. Al­guns ten­tam sor­rir, ou­tros man­têm a se­ri­e­da­de como se fos­se uma ar­ma­du­ra. Eu me sen­to na ca­be­cei­ra da mesa, cru­zo as per­nas e dei­xo o ba­tom ver­me­lho mar­car o pri­mei­ro gole do meu novo café re­cém-ser­vi­do.

— Va­mos co­me­çar. — mi­nha voz ecoa fir­me, sem es­pa­ço para he­si­ta­ção.

É nes­se mo­men­to que to­dos lem­bram que Li­an­na não é ape­nas uma CEO. Sou uma for­ça da na­tu­re­za. Uma mu­lher que não pre­ci­sa le­van­tar o tom para fa­zer o mun­do in­tei­ro se cur­var.

E en­quan­to eles fa­lam, ten­tan­do im­pres­si­o­nar com nú­me­ros, pro­je­ções e es­tra­té­gi­as, eu ape­nas ob­ser­vo. O sim­ples peso do meu olhar é su­fi­ci­en­te para que pen­sem duas ve­zes an­tes de er­rar.

Por­que aqui, nes­te im­pé­rio que cons­truí so­zi­nha, não há es­pa­ço para fra­que­za.

Ao fim da reu­ni­ão fui a mi­nha sala, es­ta­va re­vi­san­do pela ter­cei­ra vez a apre­sen­ta­ção da nova li­nha de per­fu­mes quan­do ouvi duas ba­ti­di­nhas le­ves na por­ta. Não pre­ci­sei le­van­tar os olhos para sa­ber quem era.

— Pode en­trar, Ra­quel. — dis­se, ain­da sem des­gru­dar a aten­ção da tela do no­te­bo­ok.

Ela en­trou com aque­le sor­ri­so de sem­pre, equi­li­bran­do uma pi­lha de pa­péis de um lado e um copo de café do ou­tro. Era in­crí­vel como ela con­se­guia fa­zer tudo pa­re­cer sim­ples, mes­mo quan­do eu sa­bia que a ma­nhã ti­nha sido um caos de reu­niões, li­ga­ções e pra­zos aper­ta­dos.

— Trou­xe re­for­ço — ela er­gueu o copo em mi­nha di­re­ção. — Café ex­tra for­te, do jei­ti­nho que você gos­ta.

Pe­guei sem pen­sar duas ve­zes.

— Você é a úni­ca pes­soa nes­se pré­dio que ain­da se pre­o­cu­pa em man­ter mi­nha sa­ni­da­de men­tal.

Ela riu.

— Não é fá­cil ser a me­lhor ami­ga da mu­lher mais te­mi­da do mun­do cor­po­ra­ti­vo.

Ro­lei os olhos, mas dei­xei es­ca­par um meio sor­ri­so.

Ra­quel era a úni­ca ca­paz de atra­ves­sar a mi­nha fa­cha­da sem es­for­ço. Ela me co­nhe­cia de ver­da­de. Sa­bia o quan­to eu ha­via san­gra­do para che­gar até ali, o quan­to ti­nha aber­to mão de mui­ta coi­sa e até de uma vida pes­so­al para cons­tru­ir esse im­pé­rio.

En­quan­to eu vol­ta­va mi­nha aten­ção a pa­pe­la­da, ela se apoi­ou na mesa, com aque­le olhar ma­ro­to que eu já sa­bia onde ia dar.

— Sex­ta-fei­ra. — ela co­me­çou, cru­zan­do os bra­ços. — Adi­vi­nha o que isso sig­ni­fi­ca?

— Que ama­nhã é sá­ba­do e eu fi­nal­men­te vou po­der tra­ba­lhar sem ser in­ter­rom­pi­da a cada cin­co mi­nu­tos? — res­pon­di, ten­tan­do man­ter o tom sé­rio.

Ra­quel bu­fou.

— Er­ra­do. Sig­ni­fi­ca que hoje à noi­te nós va­mos sair. E an­tes que você in­ven­te uma des­cul­pa, já com­prei in­gres­sos para um bar­zi­nho novo que abriu no cen­tro.

Sus­pi­rei, en­cos­tan­do a ca­be­ça no en­cos­to da ca­dei­ra.

— Ra­quel... você sabe que esse tipo de coi­sa não é pra mim. Mú­si­ca alta, gen­te bê­ba­da, con­ver­sas su­per­fi­ci­ais...

Ela se in­cli­nou mais per­to, os olhos bri­lhan­do de pro­vo­ca­ção.

— Você tra­ba­lha vin­te ho­ras por dia, fala com aci­o­nis­tas e in­ves­ti­do­res mi­li­o­ná­ri­os como se es­ti­ves­se pe­din­do café, mas tem medo de se di­ver­tir um pou­co?

Eu ten­tei res­pon­der, mas nada saiu. E, no fun­do, eu sa­bia que ela es­ta­va cer­ta.

— Uma noi­te, Li­an­na. Só uma. — ela in­sis­tiu, qua­se su­pli­can­do.

Fiz uma pau­sa lon­ga, to­man­do um gole do café para ga­nhar tem­po.

Por um ins­tan­te, a ima­gem de mim mes­ma so­zi­nha no sofá da co­ber­tu­ra, as­sis­tin­do a mais uma sé­rie sem gra­ça, me pa­re­ceu... in­su­por­tá­vel.

— Está bem. — mur­mu­rei por fim. — Uma noi­te. Mas só por­que você in­sis­te.

Ra­quel vi­brou como se ti­ves­se aca­ba­do de ga­nhar na lo­te­ria.

— Você não vai se ar­re­pen­der! — dis­se, já sa­in­do com pas­sos apres­sa­dos.

Eu ri bai­xi­nho, ba­lan­çan­do a ca­be­ça. No fun­do, sa­bia que me ar­re­pen­der era exa­ta­men­te o que eu ia fa­zer.

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